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É muito difícil ser boa mãe!

Postado por mariaminho.com 05/05/2017 0 Comentários Bebé,Mamã,

 

Mas entre um bebé, quando se sonha, e um bebé, quando ele nasce, há um ror de novidades e de novas exigências que fazem com que qualquer boa mãe se engasgue e se atrapalhe.

1. É verdade que os bebés são preciosos, sim. E que, mal os desafiamos para que se cheguem mais ao nosso olhar, nos miram, e fogem com os olhos, de seguida, como se precisassem de se assegurar que permanecemos (“agarrados”) a olhar para eles. A seguir, rodam a cabeça, levemente, sobre o peito da mãe e, como quem se esconde, fogem do nosso olhar (uma vez e mais outra), como se, com isso, se desenhasse um primeiro jogo de escondidas em que eles saltitam, entre a luz e a ausência do nosso olhar. Para que, depois, ao regressarem a ele, o desafiarem – olhando-nos, ainda, uma outra vez – para que, então, abram ainda mais o seu olhar e falem para nós com ele, quer os seus olhos sorriam quer não. E sempre que nos sentem a correr o risco de nos distrairmos, sem retornar ao seu olhar, fazem um som de chamada como quem nos diz: “Olha?!... Eu estou aqui!”
É verdade que os bebés são sensíveis, sábios e atentos. Mas são, sobretudo, sedutores. E é por isso que nos seguram com os olhos e nos mimam com eles. Eu acredito que aquilo que nos dizem, sempre que falam, de olhos nos olhos, é, com certeza, a verdadeira Torre de Babel. Não tão preciosa como o jeito perdidamente maravilhado com que se entregam aos olhos da sua mãe e se perdem neles. E a fixam, longamente, e a sentem. E reagem a ela como se entre os dois existisse uma conversa em que tudo se diz e se costura à margem da necessidade das palavras.
É verdade que a mãe e o pai são preciosos e insubstituíveis. Mas é verdade que, entre a ira com que se começa a mamar e a forma como ora adormece ora fala com o olhar, ora fica desperto e atento e luta, intensamente, por falar até se cansar, entre o bebé e a mãe há um longo e comovente enamoramento. Como se o mundo não parasse naqueles dois olhares mas eles fossem, quando respiram um no outro, o próprio mundo.

2. Mas é quando a barriga “dá horas”, que a dança entre um bebé e a sua mãe se complica, devagar. E não é fácil! Não é fácil agarrar um bebé, e apanhar o jeito de o ter ao colo, ligando o ritmo com que respira ao modo como ele mama. Não é fácil mãe e bebé ajeitarem-se um no outro de maneira a que ela não se atormente com o leite que pode não ter e com a sua qualidade que pode não o satisfazer. Nem são fáceis todas as horas – intermináveis (às vezes, demasiado silenciosas e solitárias) – da relação do bebé com a mama da mãe. Nem são fáceis as gretas dum peito que, por vezes, dói e magoa. Nem são fáceis as cólicas no intestino do bebé onde o ar que se engole e o que liberta não se entendem, muitas vezes. E não é, sobretudo, fácil dormitar em vez de dormir, meses a fio, e adormecer e acordar, adormecer e acordar (ou acordar sem acordar), duma forma atropelada e exausta (às vezes, com a sensação de se estar à beira dum colapso) um dia atrás do outro, sem fim à vista. E não é fácil casar os ritmos (de mamada, de conversa, de curiosidade ou de dor e lamúria) dum bebé com o cansaço da mãe. E não é fácil – nada fácil – ter um bebé sem horas e, ainda assim, ter horas, compromissos e responsabilidades e viver nessa aflição, vezes demais.

E não é fácil que todos a imaginem numa espécie de “férias de parto” que são trabalho “esforçado” e “liberdade condicional”, na maior parte do tempo. E quebrar o ritmo de todos os dias e viver à margem dos desafios do trabalho, das notícias com as quais se adormece e de ser um bocadinho dona de si que, entretanto, se deixou de ser. E ter um pai do bebé que descobre com ele um lado amoroso que não terá tido com a mãe que tão depressa a enternece e deslumbra como, de supetão, a magoa. Ou ter um pai do bebé que amua, quando perde protagonismo, e fala por murmúrios e meias-palavras. Ou ter um pai do bebé mais ou menos funcional, refugiando-se numa espécie de “terapia ocupacional”, dando ao trabalho a importância que não dá nem à mãe nem ao bebé. Ou ter um pai do bebé que reage com ciúmes ao protagonismo que ele não pode deixar de ter e se arrufa com a sexualidade que não tem, se arrufa com o cansaço com o qual concorre e, de arrufo em arrufo, decide afastar-se ou, até, separar-se.
E não é fácil querer o bulício da vida e, ao mesmo tempo, viver cada visita como um tormento e pouco mais. E não são fáceis as restrições alimentares, e fazer de cada refeição uma espécie de gincana entre desejos insatisfeitos e o longo cardápio de coisas que parece acabar a fazer mal ao seu bebé. E ter uma mãe e uma sogra que concorrem nos palpites e cujo colo, sendo igual, é vivido (tomando uma e a outra) com uma desconfiança “quase animal”. E não é fácil sentir que, quando se ama um bebé, quase se trai um irmão, mais crescidinho, e – de culpa em culpa – se vai cedendo nas regras, nas rotinas e nos rimos como se, a partir daí, nunca mais nada fosse como era dantes. E não é fácil a parafernália de fraldas, de fatinhos, de acessórios para bebé e de cadeirinhas que transformam um bebé num investimento cheio de “sobretaxas”, tanto mais tumultuoso quanto mais a Segurança Social auxilia “em câmara lenta”. E não é fácil preparar o momento em que se confia um bebé, só nosso, a um terceiro que o guarde e acalente, e lutar (interiormente) entre a saudade de regressar ao trabalho e o receio, quase irracional, de o fazer.
E não é fácil que um bebé traga as histórias que se embrulharam na nossa infância. E a relação de pais “mal amanhada” em que nos fomos construindo. E o grande amor da nossa vida de onde ele, muitas vezes, acaba por não nascer. E os remorsos por não termos planeado quase nada mesmo que, aos olhos dos outros, tenhamos pensado em quase tudo. E a consciência que se deixa de ser egocêntrico sem que se deixe de ser pequenino.

3. Não é fácil que alguém tenha em si quase todo o nosso mundo e que ele – o mundo – todos os dias, pule e avance. É muito, muito difícil, ser boa mãe. Não é que não queira, claro. Mas entre um bebé, quando se sonha, e um bebé, quando ele nasce, há um ror de novidades e de novas exigências que fazem com que qualquer boa mãe se engasgue e se atrapalhe. E que, ao contrário daquilo que ela sempre desejou, a levam a sentir o medo de não estar em todos os lugares, ao mesmo tempo, e o medo de não ter um “instinto maternal” e um “sexto sentido” que a tornem imbatível, como “a mãe dos seus sonhos” em todos os momentos seria, certamente.
É muito, muito difícil, ser boa mãe. Porque, para além de tudo o que torna muito difícil ser boa mãe, “a mãe dos seus sonhos”, que existe em todas as mães, só complica tudo, muito mais.  Às vezes, eu pergunto-me: quem terá tornado as mães exigentes, como elas são? E aí eu sossego, claro. As mães; as suas mães! Sem bebés amados, desmedidamente, pelas suas mães – com medos e com hesitações, com histórias trapalhonas e amores constipados, com exaustão e impaciência – não há mães exigentes. Aliás, é por isso que um bebé as desafia e seduz: seja o que for que lhe falte, depois de cada esconde-esconde, a mãe renasce e aparece. Como se o mundo não parasse naqueles dois olhares mas eles fossem, quando respiram um no outro, o próprio mundo.

Escrito por Eduardo Sá, psicólogo para Revista Pais&Filhos

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